Arquivo mensal: novembro 2011

Ctrl+C, Ctrl+V: Coronelismo, enxada e voto

O curso de extensão “A Globalização e seus Reflexos Multidimensionais na América do Sul”, ministrado em outubro, na Universidade Federal de Uberlândia, pelo doutor em Ciências da Educação e em Ciência Política, Miguel Ángel Barrios, a convite do professor Helvécio Damis (FADIR-UFU), foi uma das valiosas oportunidades de reflexão fomentadas pelo ambiente acadêmico. Entre as diversas preocupações do estudioso argentino, destaco uma: os brasileiros desconhecem o Brasil. A partir disso, decidi antecipar a leitura de Coronelismo, enxada e voto, de Victor Nunes Leal.

Confesso que a leitura desta obra, até então, não era prioridade. Acredito que, sob o incentivo do palestrante argentino de que devemos desvendar o contexto social no qual estamos inseridos, comecei bem. Barbosa Lima Sobrinho, no prefácio à 2ª edição do livro publicada em 1975, afirmou que Coronelismo, enxada e voto é “uma obra fundamental para o conhecimento da realidade brasileira”.

Ainda no início da leitura de Coronelismo, enxada e voto, gostaria de compartilhar alguns trechos que parecem ter sido escritos nesta década, apesar de ter sido a primeira edição publicada em 1949. A contemporaneidade do livro é tamanha que seus leitores brasileiros são obrigados a conter a euforia de que tudo vai muito bem, obrigado.

A situação dos pequenos proprietários é em regra difícil em nosso país, sobretudo quando em contato com a grande propriedade absorvente. Essa precariedade é agravada pela pouca produtividade do solo nos casos em que o parcelamento da terra foi motivado pela decadência das fazendas. Somam-se ainda as dificuldades de financiamento. E todos esses inconvenientes pesam muito mais sobre as glebas ínfimas – de menos de 5 ha -, que em 1940 compreendiam 21,76% do número total dos estabelecimentos agrícolas. A pequena propriedade próspera constitui exceção, salvo naquelas regiões em que não está sujeita à concorrência da grande, nem se constitui como legatária de sua ruína.

Este é o quadro que nos apresenta o setor dos proprietários rurais, minoria irrisória da população do país: quadro que reflete a imensa pobreza da gente que vive no meio rural, já que os proprietários de mais de 200 ha não passavam na data do censo de 1940, de 148.622, considerando-se aproximativamente o número de proprietários igual ao de estabelecimentos agrícolas. Como os proprietários médios – de 50 a 200 ha, segundo o mesmo critério, somavam 327.713, teremos para uma população rural de 28.353.866 habitantes apenas 476.335 proprietários de estabelecimentos agrícolas capazes de produzir compensadoramente. É claro que tais dados não exprimem a situação exata de nossa economia agrária, pois também possuímos pequenas propriedades prósperas, e grandes propriedades arruinadas; são, contudo, basbtante expressivos para nos dar uma idéia bem viva das mesquina existência que suporta a grande maioria dos milhões de seres humanos que habitam a zona rural do Brasil (LEAL, 1975, p-p. 29-30).

Afirma Gisele Cittadino, na obra Pluralismo, Direito e Justiça Distributiva, que “se lançarmos um rápido olhar sobre nossa sociedade, vamos perceber, de imediato, o caráter perverso que o pluralismo social assume entre nós, de vez que ele se caracteriza, antes de mais nada, por profundas divisões sociais” (CITTADINO, 2009, p-p. 229-230).

Ignorar nossa herança cultural revela-se óbice a qualquer pretensão voltada à ruptura de paradigmas.

Até a próxima,
Stanley Marques.

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