A morte de Iván Ilitch e outras histórias, de Lev Tolstói

Nas últimas férias li A morte de Iván Ilitch e outras histórias, de Lev Tolstói (1828-1910), publicado pela editora Amarilys. A obra que traz quatro novelas traduzidas por Tatiana Belinky é de leitura obrigatória para nós, passageiros angustiados da sociedade contemporânea.

Elena Vássina, a quem coube a apresentação do livro, afirma que “os personagens das obras tardias de Tolstói ganham a oportunidade de romper radicalmente com tudo o que há de ‘material’ e é imposto ao indivíduo pelas formas externas à sua existência, e de ingressar no mundo da liberdade”. Cita, ainda, Víktor Chklóvski, para o qual a novela A morte de Iván Ilitch “não é sobre o horror da morte, mas sobre o horror da vida”.

Acompanhe abaixo trecho que diz muito da angústia vivida pelo magistrado Iván Ilitch, personagem principal da novela, e que não nos é muito estranha.

Iván Ilitch (ilustração de Hélio de Almeida).

Iván Ilitch (ilustração de Hélio de Almeida).

“– Como vivias antes, bem e agradavelmente? – perguntou a voz. E ele começou a rever na imaginação os melhores momentos da sua vida agradável. Porém, coisa estranha, todos esses melhores momentos da vida agradável pareceram-lhe muito diferentes do que lhe pareciam na época. Todos, afora as primeiras lembranças da infância: Ali na infância, havia algo de verdadeiramente agradável, com o que se poderia viver, se isso voltasse. Mas aquele ente que vivera esse algo agradável já não existia: era como se fosse a recordação de alguma outra pessoa.

Tão logo começava aquilo, cujo resultado era ele, o Iván Ilitch de hoje, todas as pretensas alegrias de então derretiam-se agora diante dos seus olhos e transformavam-se em algo mesquinho e, muitas vezes, repugnante.

E, quanto mais distante da infância, quanto mais próximas do presente, tanto mais mesquinhas e duvidosas eram aquelas alegrias. Isso começava nos estudos de Direito. Ali ainda havia algo de verdadeiramente bom: havia alegria, havia amizade, havia esperança. Mas, nas classes mais adiantadas, já rareavam esses bons momentos: eram as recordações do amor por uma mulher. Depois disso, tudo se misturou, e as coisas foram diminuindo. E, adiante, cada vez menos o que era bom, e, quanto mais adiante, tanto menos.

O casamento… tão por acaso, e a desilusão, e o mau hálito da mulher, e a sensualidade, e o fingimento! E esse serviço morto, e essa preocupação com o dinheiro, e assim um ano, e dois, e dez, e vinte – sempre o mesmo. E, quanto mais adiante, tanto mais morto. Como se constantemente eu estivesse descendo a encosta da montanha, na ilusão de que a estava galgando. E era assim mesmo. Na opinião pública eu estava subindo, na mesma medida em que a vida escapava debaixo de mim… E agora, pronto, morra!

[…]

‘Quem sabe eu não viva como devia?’, vinha-lhe súbito à mente. ‘Mas como assim, não como devia, se eu fiz tudo como era devido?’, dizia-se ele: e, imediatamente, enxotava de si, como algo totalmente impossível, essa única solução de todo o enigma da vida e da morte”.

Você provavelmente se identificará com Iván Ilitch e não conseguirá se desligar dele tão cedo. Méritos de Tolstói.

Senhor e servo, O prisioneiro do Cáucaso e Deus vê a verdade, mas custa revelar – novelas que ainda serão objeto de futuros textos no Dissencialistas – também integram o livro.

Até a próxima,
Stanley Marques.

Texto dedicado a Iracema Vasconcellos, através da qual conheci Lev Tolstói.

Anúncios
Etiquetado , , , , , , , ,

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: