Arquivo da tag: Gisele Cittadino

A pobreza de nossas aspirações

Relendo o livro de Michael Sandel, Justiça. O que é fazer a coisa certa (Civilização Brasileira), provavelmente o livro mais popular de Filosofia Política dos últimos anos, a meu ver em razão de sua simplicidade (e aqui não faço qualquer crítica negativa, muito pelo contrário), um trecho do discurso proferido por Robert F. Kennedy na Universidade de Kansas, em 18 de março de 1968, me chamou (novamente) a atenção. Penso que o assunto abordado pelo estadunidense, assassinado menos de três meses depois de proferir as palavras abaixo, poderá nos orientar enquanto cidadãos engajados nas principais discussões que traduzem o Brasil contemporâneo.

Sem a pretensão de me enveredar no embate sobre a justiça travado entre liberais e comunitaristas, destaco a passagem a seguir para que possamos refletir sobre a atual conjuntura política, econômica e social brasileira, afinal “ainda que trabalhemos para erradicar a pobreza material […] há outra tarefa de grande importância: enfrentar a pobreza de aspirações que nos aflige a todos”. Não bastaria, segundo Kennedy, o “mero acúmulo de bens materiais” (SANDEL, 2011, p. 323).

“Nosso Produto Interno Bruto agora ultrapassa 800 bilhões de dólares por ano. Mas nesse PIB estão embutidos a poluição do ar, os comerciais de cigarros e as ambulâncias para limpar nossas carnificinas. Ele inclui fechaduras especiais para nossas portas e prisões para as pessoas que as arrombam. Inclui a destruição de nossas sequoias e a perda de nossas maravilhas naturais em acumulações caóticas de lucro. Inclui as bombas napalm e as ogivas nucleares e os veículos blindados da polícia para combater os tumultos em nossas cidades. Inclui (…) os programas de televisão que estimulam a violência com a finalidade de vender brinquedos a nossas crianças. Entretanto, o PIB não garante a saúde de nossas crianças, a qualidade de sua educação ou a alegria de suas brincadeiras. Não inclui a beleza de nossos debates públicos ou a integridade das autoridades de nosso governo. Ele não mensura nosso talento ou nossa coragem, nossa sabedoria ou nosso aprendizado, nossa compaixão ou nossa devoção a nossa país. Ele tem a ver com tudo, em suma, exceto com aquilo que faz com que a vida valha a pena. E ele pode nos dizer tudo sobre os Estados Unidos, exceto o motivo pelo qual temos orgulho de ser americanos” (SANDEL, 2011, p. 324).

Por fim, uma provocação: seria satisfatório ou mesmo apropriado que as discussões sobre justiça e direitos sejam conduzidas pela racionalidade pública liberal, despojada de fundamentação em conceitos morais ou religiosos?

*

Em pouco mais de um ano o blog já ultrapassou a marca de 3.000 acessos. Obrigado!

Até a próxima,
Stanley Marques.

Anúncios
Etiquetado , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

Ctrl+C, Ctrl+V: Coronelismo, enxada e voto

O curso de extensão “A Globalização e seus Reflexos Multidimensionais na América do Sul”, ministrado em outubro, na Universidade Federal de Uberlândia, pelo doutor em Ciências da Educação e em Ciência Política, Miguel Ángel Barrios, a convite do professor Helvécio Damis (FADIR-UFU), foi uma das valiosas oportunidades de reflexão fomentadas pelo ambiente acadêmico. Entre as diversas preocupações do estudioso argentino, destaco uma: os brasileiros desconhecem o Brasil. A partir disso, decidi antecipar a leitura de Coronelismo, enxada e voto, de Victor Nunes Leal.

Confesso que a leitura desta obra, até então, não era prioridade. Acredito que, sob o incentivo do palestrante argentino de que devemos desvendar o contexto social no qual estamos inseridos, comecei bem. Barbosa Lima Sobrinho, no prefácio à 2ª edição do livro publicada em 1975, afirmou que Coronelismo, enxada e voto é “uma obra fundamental para o conhecimento da realidade brasileira”.

Ainda no início da leitura de Coronelismo, enxada e voto, gostaria de compartilhar alguns trechos que parecem ter sido escritos nesta década, apesar de ter sido a primeira edição publicada em 1949. A contemporaneidade do livro é tamanha que seus leitores brasileiros são obrigados a conter a euforia de que tudo vai muito bem, obrigado.

A situação dos pequenos proprietários é em regra difícil em nosso país, sobretudo quando em contato com a grande propriedade absorvente. Essa precariedade é agravada pela pouca produtividade do solo nos casos em que o parcelamento da terra foi motivado pela decadência das fazendas. Somam-se ainda as dificuldades de financiamento. E todos esses inconvenientes pesam muito mais sobre as glebas ínfimas – de menos de 5 ha -, que em 1940 compreendiam 21,76% do número total dos estabelecimentos agrícolas. A pequena propriedade próspera constitui exceção, salvo naquelas regiões em que não está sujeita à concorrência da grande, nem se constitui como legatária de sua ruína.

Este é o quadro que nos apresenta o setor dos proprietários rurais, minoria irrisória da população do país: quadro que reflete a imensa pobreza da gente que vive no meio rural, já que os proprietários de mais de 200 ha não passavam na data do censo de 1940, de 148.622, considerando-se aproximativamente o número de proprietários igual ao de estabelecimentos agrícolas. Como os proprietários médios – de 50 a 200 ha, segundo o mesmo critério, somavam 327.713, teremos para uma população rural de 28.353.866 habitantes apenas 476.335 proprietários de estabelecimentos agrícolas capazes de produzir compensadoramente. É claro que tais dados não exprimem a situação exata de nossa economia agrária, pois também possuímos pequenas propriedades prósperas, e grandes propriedades arruinadas; são, contudo, basbtante expressivos para nos dar uma idéia bem viva das mesquina existência que suporta a grande maioria dos milhões de seres humanos que habitam a zona rural do Brasil (LEAL, 1975, p-p. 29-30).

Afirma Gisele Cittadino, na obra Pluralismo, Direito e Justiça Distributiva, que “se lançarmos um rápido olhar sobre nossa sociedade, vamos perceber, de imediato, o caráter perverso que o pluralismo social assume entre nós, de vez que ele se caracteriza, antes de mais nada, por profundas divisões sociais” (CITTADINO, 2009, p-p. 229-230).

Ignorar nossa herança cultural revela-se óbice a qualquer pretensão voltada à ruptura de paradigmas.

Até a próxima,
Stanley Marques.

Etiquetado , , , , , , , , , , ,
%d blogueiros gostam disto: